domingo, 6 de setembro de 2026

 


Na noite de 14 de setembro de 2023, uma ocorrência policial começou no bairro de Tabatinga, em Camaragibe, Pernambuco. A Polícia Militar havia recebido uma denúncia de que um homem estaria em cima de uma laje efetuando disparos para o alto.


O homem era Alex da Silva Barbosa, um vigilante de 33 anos.


Quando os policiais chegaram ao local, houve uma troca de tiros. O soldado Eduardo Roque Barbosa de Santana, de 33 anos, e o cabo Rodolfo José da Silva, de 38, foram mortos. Alex conseguiu fugir.


Durante o confronto, uma vizinha de 19 anos, Ana Letícia Carias da Silva, que estava grávida, também foi atingida por um tiro na cabeça. Ela ficou internada por mais de um mês, deu à luz uma menina durante a internação e morreu em outubro.


A investigação da Polícia Civil concluiu posteriormente que o disparo que atingiu Ana Letícia partiu da arma de Alex. A perícia e uma reprodução simulada foram usadas para chegar a essa conclusão.


Mas, enquanto Alex era procurado, uma segunda história começava a acontecer.


Segundo o Ministério Público de Pernambuco, depois da morte dos dois policiais, alguns PMs teriam organizado uma caçada contra Alex e seus familiares. 


A investigação afirma que policiais participaram de uma reunião para planejar as buscas e que alguns deles teriam usado carros sem placas, roupas à paisana, balaclavas e armas que não pertenciam oficialmente à corporação.


E uma das primeiras pessoas encontradas não era Alex.


Era a cunhada dele.


Na madrugada de 15 de setembro, ela estava voltando para casa em um carro de aplicativo. No veículo estavam também as duas filhas dela, de apenas 10 e 11 anos.


Cinco policiais teriam parado o carro.


A mulher foi retirada do veículo e as duas crianças ficaram sozinhas dentro do carro enquanto a mãe era levada para dentro de uma residência.


Segundo a denúncia do Ministério Público, os policiais queriam descobrir onde estavam Alex e o marido dela, Amerson Juliano da Silva.


A mulher teria sido ameaçada e submetida a tortura psicológica para fornecer informações. O motorista do aplicativo, que não tinha qualquer relação com Alex ou com os policiais mortos, também teria sido mantido sob domínio dos agentes e sofrido agressões físicas e psicológicas para que revelasse informações.


A investigação aponta que o objetivo era conseguir chegar até Amerson e, por meio dele, localizar Alex.


Depois de ser pressionada, a cunhada teria entrado em contato com o marido e feito com que ele fosse até determinado local.


Amerson não foi sozinho. Ele estava com os irmãos Ágata Ayanne da Silva, de 30 anos, e Apuynã Lucas da Silva, de 25.


Os três acabaram entrando em uma emboscada. E foi nesse momento que aconteceu uma das cenas mais marcantes de toda a investigação.


Ágata começou uma transmissão ao vivo pelo Instagram.


Durante a live, os três aparecem diante de homens armados. Eles recebem ordens para colocar as mãos na cabeça e se ajoelhar.


Pouco depois, os disparos começam.


Ágata e Amerson morreram no local. Apuynã foi baleado e chegou a ser socorrido, mas também morreu. A transmissão terminou registrando parte do ataque e se tornou uma das provas analisadas pelos investigadores.


Mas ainda faltavam duas pessoas da família de Alex.


Naquela mesma madrugada, a mãe dele, Maria José Pereira da Silva, e a esposa, Maria Nathalia Campelo do Nascimento, também desapareceram.


Na manhã de 15 de setembro, os corpos das duas foram encontrados em um canavial no município de Paudalho.


Enquanto isso, Alex continuava sendo procurado.


Ele acabou localizado naquela manhã e morreu durante um novo confronto com policiais. O inquérito que investigou a morte dele foi posteriormente arquivado pela Justiça, que considerou que os policiais envolvidos agiram em legítima defesa.


No fim de poucas horas, nove pessoas estavam mortas em acontecimentos ligados àquela noite: os dois policiais, Ana Letícia e cinco familiares de Alex, além do próprio vigilante.


A investigação encontrou mensagens trocadas entre policiais, dados de localização de celulares e outras informações que, segundo o Ministério Público, ajudaram a reconstruir a sequência dos acontecimentos.


Entre as mensagens recuperadas estava uma frase que chamou atenção dos investigadores: “Tô feliz, tem que ser assim”.


Em março de 2024, 12 policiais militares foram denunciados e se tornaram réus pelas mortes dos três irmãos de Alex. Eles também passaram a responder a outro processo, na Justiça Militar, pela acusação de tortura contra a cunhada de Alex e o motorista de aplicativo.


A acusação sustenta que os policiais não estavam simplesmente tentando localizar Alex, mas que existia uma ação organizada para encontrar e matar familiares dele.


Os policiais acusados negam as acusações.


Em 2025, os cinco PMs que estavam presos preventivamente conseguiram responder ao processo em liberdade, mediante medidas cautelares.


E o caso ainda ganhou outro capítulo em 2026.


O Ministério Público denunciou mais oito policiais pelas mortes da mãe e da esposa de Alex. Entre os denunciados estão oficiais que já apareciam nas investigações anteriores.


Ou seja, três anos depois da chacina, o caso ainda está longe de terminar. E até hoje, a Justiça ainda precisa definir a responsabilidade de cada um dos policiais denunciados.