Gustavo Dias, estrategista político, mestre em Comunicação e filósofo pela UFMG, comentou a entrevista concedida pelo secretário de Governo e pré-candidato ao Senado Marcelo Aro ao jornal Estado de Minas.
Na entrevista, Aro defendeu o vice-governador Mateus Simões e comparou sua situação eleitoral com a de Antonio Anastasia em 2010 e a de Fuad Noman em 2024.
Gustavo Dias afirma que até poderia concordar com Marcelo Aro, “mas aí seríamos dois acreditando em contos de fadas”. Segundo ele, existem diferenças profundas entre os cenários.
Os números de 2010
Pesquisas da época mostravam o então candidato Hélio Costa na liderança:
Março de 2009 (Datafolha): Hélio Costa 41% — Anastasia 5%
Dezembro de 2009 (Datafolha): Hélio Costa 37% — Anastasia 13%
Maio de 2010 (Vox Populi): Hélio Costa 45% — Anastasia 17%
Mesmo assim, Anastasia tinha um fator decisivo: o apoio do então governador Aécio Neves, que em dezembro de 2009 aparecia como o governador mais bem avaliado do país, com 73% de avaliação ótima ou boa.
O cenário atual
Hoje, segundo pesquisa Atlas/Intel de dezembro de 2025, o governador Romeu Zema aparece apenas na 18ª posição no ranking nacional de aprovação, com 42% de aprovação e 54% de desaprovação.
Para o analista, uma boa aprovação é o primeiro passo para um governador eleger seu sucessor, mas não é suficiente.
Em 2007, Aécio autorizou um aumento salarial de 33,1% para policiais civis, militares e bombeiros, conquistando apoio das forças de segurança. Naquele período, a segurança pública sequer figurava entre os principais problemas apontados pelos mineiros.
Hoje, o cenário é diferente: segurança pública é tema central e, segundo o analista, Zema e Mateus acumulam desgastes com o funcionalismo.
Narrativas políticas
Outra diferença simbólica citada por Gustavo Dias está nas decisões administrativas.
Em 2003, Aécio Neves reduziu o próprio salário em 45%, diminuindo automaticamente o teto do funcionalismo estadual. O chamado “Choque de Gestão”, conduzido por Anastasia, tornou-se a marca daquele governo.
Já em 2023, Zema sancionou aumento de cerca de 300% no salário do governador e de secretários. Além disso, a dívida do estado teria crescido de cerca de 100 bilhões para aproximadamente 170 bilhões em oito anos.
Para o analista, essas narrativas têm forte peso em contextos eleitorais.
Base política
Em 2010, o PSDB havia consolidado uma base estável após oito anos no governo. A coligação “Somos Minas Gerais”, que apoiou Anastasia, reuniu uma ampla frente partidária.
Hoje, Mateus Simões conta com apoio de partidos como PSD, Novo, Podemos, Solidariedade, Mobiliza, PRD e DC, e tenta atrair PP e União Brasil, mas sem garantia de fidelidade.
Além disso, já existem manifestações contrárias dentro da própria base.
O deputado estadual Sargento Rodrigues e o deputado Cristiano Caporezzo, do PL, já declararam que não apoiarão Simões. O deputado Bruno Engler também afirmou que o PL pode lançar candidatura própria ou apoiar Cleitinho Azevedo.
Já o deputado Eduardo Azevedo indicou que poderia migrar de partido caso o PL não apoie Cleitinho.
Segundo Gustavo Dias, o retrato atual é de uma base política fragilizada.
Prefeitos e articulação
Mateus Simões poderia contar com prefeitos do interior, que tiveram repasses regularizados após o governo anterior de Fernando Pimentel.
No entanto, Cleitinho já declarou a intenção de ter como vice o presidente da Associação Mineira de Municípios, Luís Eduardo Falcão, o que pode fortalecer sua articulação com lideranças municipais.
Sem uma base sólida na Assembleia e sem amplo apoio de prefeitos, o analista questiona como Simões poderia sair de cerca de 9% nas pesquisas para uma eventual vitória.
Novo fator eleitoral
Outro ponto destacado é o peso das redes sociais.
Anastasia enfrentou Hélio Costa, então com cerca de 70 anos. Fuad Noman disputou contra Mauro Tramonte. Ambos eram jornalistas conhecidos.
Já Cleitinho, hoje com cerca de 43 anos, tem quase 4 milhões de seguidores nas redes sociais e dialoga diretamente com uma parcela relevante do eleitorado de 2026, especialmente das gerações Z e Millennials.
Conclusão da análise
Para Gustavo Dias, o cenário atual é muito mais complexo do que as comparações sugeridas por Marcelo Aro.
Na avaliação do estrategista, Mateus Simões dificilmente “decolará” eleitoralmente até outubro. Ele afirma ainda que, se Marcelo Aro pretende disputar o Senado por Minas Gerais, talvez seja prudente reavaliar a estratégia política enquanto ainda há tempo para reorganizar sua base eleitoral.
Gustavo Dias @Gustavo MDias
Estrategista político, Mestre em Comunicação e Filósofo - UFMG