segunda-feira, 20 de abril de 2026

 


Ser policial militar e ser de esquerda é viver em constante tensão entre o que eu penso e o ambiente onde trabalho. Entrei na Polícia Militar do Brasil com a ideia de servir à população, proteger vidas, fazer o certo. Isso nunca mudou. O que mudou foi perceber que, dentro da corporação, pensar diferente tem um preço.

No começo, eu evitava falar de política. Observava mais do que falava. Mas com o tempo, fui vendo comentários, piadas, posicionamentos muito claros, quase sempre no mesmo sentido. Quando alguém elogiava Jair Bolsonaro, era normal, até incentivado. Quando eu discordava, o clima mudava. Vieram os olhares, o silêncio, as conversas que param quando você chega.

Te chamam de “esquerdista”, “defensor de bandido”, como se isso anulasse tudo que você faz na rua, tudo que você arrisca todos os dias. É como se você tivesse que provar o tempo todo que é policial de verdade. E isso cansa.

Não é só sobre discussão. É sobre ser deixado de lado, não ser lembrado, sentir que perdeu espaço entre colegas que antes eram próximos. Às vezes, o recado não vem direto, mas vem claro: melhor ficar quieto. Melhor não se expor. Melhor não comprar briga.

Mas ao mesmo tempo, eu não consigo fingir. Eu acredito que dá pra fazer segurança pública sem tratar ninguém como inimigo por definição. Acredito que respeito não vem do medo. E acredito que ser policial não deveria depender de qual lado político você está.

Então a gente segue nesse equilíbrio difícil: trabalhando, cumprindo missão, mas carregando essa sensação de estar sempre sendo observado, medido, julgado. Ser policial de esquerda não é só ter uma opinião diferente. É aprender a conviver com o peso disso todos os dias, dentro de um lugar que nem sempre aceita quem pensa fora da linha.

  Ser policial militar e ser de esquerda é viver em constante tensão entre o que eu penso e o ambiente onde trabalho. Entrei na Polícia Mili...