A jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo e comentarista da GloboNews, tornou-se o centro de uma forte turbulência política após publicar reportagens envolvendo supostas reuniões e pressões atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no contexto do caso do Banco Master.
Desde então, o debate deixou o campo técnico e mergulhou na arena da polarização. De um lado, críticas duras à apuração; de outro, manifestações de apoio em defesa da liberdade de imprensa. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo publicou nota repudiando ataques contra a jornalista, apontando inclusive o componente misógino que frequentemente atinge mulheres na profissão.
O ponto central, porém, vai além da figura da jornalista. Trata-se do ambiente institucional que se consolida no país. Questionar decisões e condutas de integrantes do STF não deveria ser tratado como afronta à democracia — ao contrário, é parte essencial dela. O problema surge quando a crítica passa a ser confundida com tentativa de desestabilização, e a apuração jornalística passa a ser vista como ameaça.
Se, em um cenário extremo, uma jornalista vier a ser presa em razão do conteúdo de seu trabalho — e não por crime comum devidamente comprovado dentro do devido processo legal — o debate deixa de ser ideológico. Não se trata de esquerda ou direita. Trata-se de equilíbrio entre Poderes, de liberdade de imprensa e de limites institucionais.
Democracias não se enfraquecem apenas por golpes abruptos. Elas também podem se deteriorar pela naturalização de excessos, pela concentração progressiva de poder e pela intimidação indireta de quem fiscaliza. A crítica ao Judiciário é legítima. A blindagem absoluta, não.