Ser policial militar e ser de esquerda é viver em constante tensão entre o que eu penso e o ambiente onde trabalho. Entrei na Polícia Militar do Brasil com a ideia de servir à população, proteger vidas, fazer o certo. Isso nunca mudou. O que mudou foi perceber que, dentro da corporação, pensar diferente tem um preço.
No começo, eu evitava falar de política. Observava mais do que falava. Mas com o tempo, fui vendo comentários, piadas, posicionamentos muito claros, quase sempre no mesmo sentido. Quando alguém elogiava Jair Bolsonaro, era normal, até incentivado. Quando eu discordava, o clima mudava. Vieram os olhares, o silêncio, as conversas que param quando você chega.
Te chamam de “esquerdista”, “defensor de bandido”, como se isso anulasse tudo que você faz na rua, tudo que você arrisca todos os dias. É como se você tivesse que provar o tempo todo que é policial de verdade. E isso cansa.
Não é só sobre discussão. É sobre ser deixado de lado, não ser lembrado, sentir que perdeu espaço entre colegas que antes eram próximos. Às vezes, o recado não vem direto, mas vem claro: melhor ficar quieto. Melhor não se expor. Melhor não comprar briga.
Mas ao mesmo tempo, eu não consigo fingir. Eu acredito que dá pra fazer segurança pública sem tratar ninguém como inimigo por definição. Acredito que respeito não vem do medo. E acredito que ser policial não deveria depender de qual lado político você está.
Então a gente segue nesse equilíbrio difícil: trabalhando, cumprindo missão, mas carregando essa sensação de estar sempre sendo observado, medido, julgado. Ser policial de esquerda não é só ter uma opinião diferente. É aprender a conviver com o peso disso todos os dias, dentro de um lugar que nem sempre aceita quem pensa fora da linha.
*recebido
"Por que o policial raiz é de direita? Um dos maiores desafios da atuação policial é o combate ao crime e à impunidade. Nessa linha, o pensamento de direita prioriza a responsabilidade individual, o crime é visto como uma escolha consciente que exige uma resposta proporcional do Estado. Essa clareza ética simplifica a atuação em campo.
A ideologia de direita fundamenta-se na manutenção da ordem social e no respeito às hierarquias institucionais. Para um policial, cujo juramento é proteger a sociedade e aplicar a lei, essa visão oferece a sustentação moral necessária para o exercício do poder de polícia.
Para o profissional de segurança, o alinhamento com a direita representa a busca por um ambiente onde o Estado não apenas permite que ele atue, mas o valoriza como o principal garantidor da civilização contra a barbárie.
Quando um cidadão com inclinações de direita opta pela carreira policial, ele geralmente o faz porque enxerga na instituição um espelhamento de seus próprios valores fundamentais.
Pessoas que possuem valores conservadores ou liberais clássicos, sentem-se confortáveis e realizadas em ambientes onde o mérito, o respeito à antiguidade e a disciplina são as regras do jogo.
Por outro lado, o policial de esquerda convive com o fenômeno chamado "conflito de identidade institucional". Enquanto a instituição policial é construída sobre bases de preservação da ordem e autoridade, a ideologia de esquerda, em muitas de suas vertentes, foca na crítica às estruturas de poder e na reforma profunda do sistema punitivo.
Dessa forma, embora outros perfis ideológicos também possam servir com excelência, o alinhamento com os valores de direita oferece uma harmonia natural entre a visão de mundo do indivíduo e a missão da instituição. A escolha pela carreira policial, para este perfil, é a materialização de uma vocação".
Recebido

